Quando o que era para ser diálogo, vira disputa. E o amor começa a se perder no meio do barulho.
Chega uma hora em que cansa.
Cansa tentar conversar e não conseguir.
Cansa começar falando de uma coisa pequena — um comentário, uma diferença, um mal-entendido — e, quando se percebe, vocês já estão no meio de uma discussão que nem sabem mais como começou.
Cansa repetir as mesmas coisas e sentir que não está sendo ouvido, que não está sendo compreendido.
Cansa perceber que a outra pessoa parece mais interessada em se defender do que, de fato, escutar.
E, em algum momento, cansa até de tentar.
O mais difícil é que, no meio de tudo isso, o amor não desaparece.
Mas ele começa a ficar escondido.
Fica sufocado no meio das acusações, das respostas atravessadas, dos olhares que antes eram de cuidado — e agora carregam irritação, impaciência e tristeza.
Por que isso acontece?
Ninguém entra em um relacionamento sabendo brigar.
A forma como cada um aprende a se comunicar, discutir, reagir, vem da história que carrega, das experiências, das referências que teve. E, muitas vezes, este aprendizado acontece de maneira torta, cheia de lacunas e repetições.
Quando toda conversa vira briga, geralmente não é sobre aquele tema específico.
Não é sobre quem deixou a luz acesa, quem não lavou a louça ou quem chegou mais tarde.
Por trás das brigas estão:
– Palavras não ditas há muito tempo.
– Feridas antigas que foram ignoradas.
– Carências acumuladas.
– Expectativas não conversadas.
– Mágoas que nunca foram curadas.
E, então, qualquer coisa vira gatilho.
A conversa que poderia ser simples, vira disputa.
Cada um querendo ser ouvido, ser validado, ser reconhecido.
Mas, na prática, ninguém consegue escutar ninguém.
O ciclo se repete:
– Você fala.
– O outro se defende.
– Você sente que não foi ouvido.
– Aumenta o tom, tenta ser mais claro, mais firme.
– O outro se fecha, rebate, contra-ataca.
– A conversa sai do controle.
– Vem a mágoa. O silêncio. Ou aquele afastamento que dura dias.
E, pouco a pouco, vocês deixam de falar sobre o que realmente importa.
E sabe qual é o perigo?
É que, no meio desse ciclo, o amor não desaparece — mas começa a adoecer.
Ele vai ficando pesado.
Passa a ser associado à tensão, ao desconforto, ao medo de que “se eu falar, vai dar briga de novo”.
E, lentamente, surge o silêncio.
Mas não aquele silêncio bom, confortável.
É o silêncio que nasce do cansaço, da desistência, do medo de mais uma discussão.
Existe saída?
Sim.
Mas não é mágica. Nem imediata.
É preciso entender que a comunicação do casal não adoeceu da noite para o dia.
Ela foi sendo construída assim — no piloto automático, nas respostas defensivas, na dificuldade de olhar para as próprias dores, nas feridas não cuidadas.
O caminho começa quando os dois param de focar em quem está certo ou errado — e começam a olhar, juntos, para o que acontece entre eles.
No espaço entre a fala e a escuta. No espaço entre o que se diz e o que se sente.
Para que a conversa não vire sempre briga, é necessário:
– Aprender a escutar de verdade — não apenas para responder, mas para compreender.
– Reconhecer o próprio tom, a própria rigidez, a própria defensividade.
– Falar de si, das próprias dores, sem transformar tudo em acusação.
– Parar de disputar quem sofre mais, quem tem mais razão ou quem acerta mais.
– E, talvez o mais desafiador, aceitar que muitas discussões não são sobre quem está certo, mas sobre como cada um se sente, como cada um se percebe dentro da relação.
No fundo…
O que todo casal deseja — e precisa — é exatamente isso: se sentir visto, se sentir ouvido, se sentir importante.
Por trás da briga, quase sempre, está alguém tentando dizer — mesmo que de forma atravessada, confusa, desesperada:
“Por favor, me escuta. Eu estou aqui. Eu estou tentando. Mas também estou cansando.”


