Quando as funções executivas se tornam um campo de batalha interno.
Se você já se pegou perguntando “Será que sou apenas preguiçoso?” ou “Por que eu adio tanto as coisas mesmo querendo muito realizá-las?”, talvez esteja lidando com algo mais profundo do que simples desmotivação. Para muitos adultos com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), essa dúvida aparece com frequência – e com ela, uma avalanche de culpa, frustração e incompreensão.
A neuropsicologia oferece respostas importantes para essa questão, ajudando a diferenciar comportamentos que parecem semelhantes na superfície, mas têm origens muito distintas no funcionamento cerebral.
O que são funções executivas?
As funções executivas são processos cognitivos responsáveis por gerenciar, planejar, organizar e monitorar comportamentos dirigidos a objetivos. Elas atuam como uma espécie de “diretor executivo” do cérebro. São habilidades que incluem:
- Planejamento e organização
- Inibição de impulsos
- Regulação emocional
- Memória de trabalho
- Flexibilidade cognitiva
- Iniciação e manutenção de tarefas
Essas funções dependem, em grande parte, da região pré-frontal do cérebro – área que apresenta padrões de ativação atípicos em pessoas com TDAH, segundo estudos de neuroimagem funcional (Barkley, 2015; Castellanos et al., 2006).
TDAH não é preguiça
A “preguiça”, no senso comum, costuma ser associada à falta de vontade, esforço ou caráter. Mas no TDAH, a dificuldade de iniciar tarefas está muito mais ligada a falhas no sistema de autorregulação do que a desinteresse. O problema não é falta de desejo ou de inteligência – é um atraso ou falha na ativação neural adequada para o início e continuidade da tarefa. A motivação no TDAH é altamente modulada por níveis de dopamina, um neurotransmissor envolvido no sistema de recompensa e no impulso por novidade (Volkow et al., 2009).
E a procrastinação?
A procrastinação pode estar presente em qualquer pessoa, sobretudo em situações de estresse ou baixa recompensa. Porém, no TDAH, ela é crônica, disfuncional e muitas vezes devastadora. Não se trata apenas de deixar para depois: trata-se de não conseguir fazer agora, mesmo sabendo das consequências negativas. A memória de trabalho reduzida, combinada com dificuldades em priorização e regulação emocional, cria um ciclo de adiamento que, com o tempo, gera sentimentos de vergonha e autojulgamento.
Como identificar a diferença?
| Comportamento | Preguiça | Procrastinação ocasional | TDAH |
| Frequência | Esporádica | Recorrente em contextos específicos | Constante, em múltiplas áreas da vida |
| Intenção | Evita esforço deliberadamente | Adia por cansaço ou baixa recompensa | Deseja agir, mas é impedido por desregulação |
| Culpa / Sofrimento | Geralmente ausente | Presente, mas pontual | Frequente e intenso |
| Áreas da vida afetadas | Raramente impacta | Tende a ser pontual | Impacta trabalho, estudos, relações, rotina |
O papel da avaliação neuropsicológica
Uma avaliação neuropsicológica pode ser determinante para compreender o perfil de funcionamento executivo, mapeando forças e dificuldades com precisão. Com instrumentos validados, é possível avaliar atenção sustentada, inibição, memória operacional, planejamento e flexibilidade cognitiva, além de traçar hipóteses diagnósticas consistentes. Isso ajuda a diferenciar TDAH de quadros como depressão, transtornos de ansiedade ou simplesmente dificuldades momentâneas de autorregulação.
E o que pode ajudar?
O tratamento envolve uma combinação de abordagens: psicoterapia, psicoeducação, estratégias de organização, treino de funções executivas e, quando necessário, medicação. O acompanhamento neuropsicológico e terapêutico permite desenvolver ferramentas práticas de enfrentamento, não para “curar o TDAH”, mas para aprender a navegar melhor com ele.
Você não é preguiçoso. Não é menos capaz. Há um funcionamento diferente que pode – e merece – ser compreendido com respeito, ciência e acolhimento.
Indicações de Leitura para te ajudar com isso:
- Vencendo o TDAH Adulto – Russell Barkley
Um guia prático e baseado em evidências, com foco nas funções executivas e nos desafios da vida adulta. - Mentes Inquietas – Ana Beatriz Barbosa Silva
Obra nacional de grande alcance que ajuda a compreender o TDAH de forma acessível e embasada. - TDAH ao longo da vida – Mário Louzã
Escrita por um psiquiatra brasileiro, aborda o TDAH desde a infância até a vida adulta.


